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Músicos: ministério ou brincadeira de fim de semana? O músico cristão e a igreja local
Por Carlos Sider   
24 de junho de 2008

carlos_sider.jpgEra uma vez José. Músico muito bom e sério. Cristão, decidiu também usar sua música a serviço do reino de Deus. Mergulhou de cabeça no trabalho de sua igreja local, servindo alí quase todos os fins de semana. Chegava mais cedo, saia mais tarde que todos, montando e desmontando instrumentos e tralhas. Ensaiava, escrevia partituras e cifras, compunha, ensinava, trabalhava. Sua música era e sempre foi boa, técnica, de conteúdo. Alguns CD´s e José já estava conhecido no meio cristão. Convites e compromissos passaram a ser realidade. Hora de viver uma nova forma ministerial, servindo também a outras comunidades e, por que não lembrar, passando a obter seu sustento também deste ministério para o qual fora chamado.

Mas José foi acusado pelo pastor da sua igreja por abandonar o barco. Como é que ficaria a igreja nos domingos em que José estivesse ausente? Por mais que José tivesse até ensinado um pessoal a tocar melhor, eles não eram a mesma coisa.

José ficou triste com o tal pastor, pois ele bem sabia de seus sonhos ministeriais e suas necessidades. Embora a igreja jamais tivesse colaborado e reconhecido seu trabalho, por que agora o acusava de correr atrás da realização de seus sonhos ministeriais e de formas de sustento?
Enfim, José resolveu partir pra outra igreja que tivesse melhor visão. Como já era razoavelmente conhecido, não foi problema achar outra comunidade que rapidamente o acolheu e fez festa para sua chegada. Afinal, quem não queria contar com alguém como José em sua igreja?

E tudo novamente começou. Se José não era mais o burro de carga, começou a ser usado de outras formas. O pastor da tal igreja o vivia chamando para acompanha-lo em suas saídas a pregar: ele pregava, o José tocava. E o pastor também pedia que José fizesse músicas para a campanha de construção, para a campanha de missões, etc, etc.

Mas se o ambiente era outro, a história não foi muito diferente. Com o tempo José deixou de ser novidade; vivia saindo a tocar “por aí”, cansou de ser garoto-propaganda de campanhas e atividades, passou a ser conhecido como “um chato exigente”, pois era sério com música, mas nesta igreja encontrou uma turma menos laboriosa, mais festiva. Era uma turma do oba-oba, mas eram filhos dos caciques. E lá se foi o ânimo outra vez.

Hoje você encontra José em seu website, tocando em algum lugar por aí num fim de semana qualquer. Diz-se que ele frequenta a “igreja X”, mas a chance de vê-lo tocando por lá é baixa. Acabou por aceitar a realidade de que tem espaço na igreja dos outros, mas não na sua. Certos dias volta a ter o comichão de colaborar, mas lembra da experiência anterior. Engole seco e segue sua vida no princípio “eu no meu cantinho, e eles no deles”. Melhor assim, diz ele.

De outro lado, veja o Antonio - pastor da Comunidade Cristã da Vila Santana da Penha (nome fictício). Sendo pastor de uma comunidade que reúne cerca de 3 mil pessoas todo fim de semana, além de pilotar os programas de TV da igreja, não aguenta mais o assédio dos músicos atuais. Foi forçado a tomar medidas drásticas junto com sua liderança limitando a participação de músicos e grupos nas reuniões, pois a fila dos interessados estava grande demais. Com um “efeito arena” deste porte, é o músico X que quer divulgar seu novo CD, o grupo Y que deseja apresentar seu novo DVD, o autor Z da editora R que desejam promover um novo livro. Começaram a surgir reclamações de membros da igreja, pois a cada domingo aparecia alguém diferente querendo vender alguma coisa.

Para que a sua igreja não virasse um mercado persa, Antonio fechou as portas para os interessados. Hoje é chamado de chato pelos de fora.

Ah, e há também o caso do pastor que tentou chamar um certo grupo musical bastante conhecido para uma programação específica, mas caiu de costas quando soube o que eles cobravam, e as exigências que faziam. E há também o caso do músico que aceitou o convite do pastor Miguel para alí colaborar. Foi lá, tocou, cantou, oraram por ele mas o pastor fez jus ao nome: deu uma de “migué” e o músico teve de pedir carona para voltar para sua casa, pois nem o dinheiro da condução ele tinha.

Eu lhe pergunto: você já viu histórias assim?

Eu lhe respondo: já, já ví, tenho visto, tenho vivido. Temos vivido tempos em que certas igrejas não são mais apenas igrejas, mas grandes arenas, grandes eventos, grandes públicos. O povo está cada vez mais exigente, e não é apenas um pianinho tocando um hino que satisfaz o pessoal: é preciso uma banda bem ensaiada, um vocal bem montado, um programa mais atrativo.

Onde? Ora, se a sua igreja não é assim, faça festa! Mas uma bem próxima de sua casa é...

Quem está certo? Quem está errado? Todos certos? Todos errados?

Tenho lá minhas opiniões. Penso existir dois tipos de músico cristão (músicos, grupos musicais, grupos de teatro, etc – generalizando todo tipo de artista cristão, incluindo seus agregados: editora, agente, produtora):

a) o bom músico – aquele sério, com visão correta de seu ministério, coerente e efetivamente chamado por Deus para fazer o que faz, com uma folha corrida de resultados que fala muito mais alto que qualquer discurso,  e

b) o mau músico – aquele que está de olho na arena, no público, que fala mais do que faz.

De outro lado, existem também dois tipos de igreja local, quase sempre personificada pelo seu pastor:

c) a boa igreja – aquela séria, com visão correta de ministério, coerente. Uma efetiva agência do reino de Deus na terra; e
d) a má igreja – aquela que não parece ser mais do que uma agremiação buscando uma boa programação; aquela que vive de evento em evento, onde o marketing, a politicagem e a grana falam mais do que a Palavra; aquela cujo pastor crê estar acima do bem e do mal.
 

Se você não sabe, sou um músico cristão, e tenho também me envolvido na liderança de igrejas locais. Neste Brasil de hoje você por certo pode imaginar algum nome real para os Josés ou Antonios de há pouco. Confesso que viví e tenho vivido um pouco de tudo.

Creio que é hora de aposentarmos nossos discursos de púlpito, nos quais igrejas e músicos se inflamam em votos de eterno apoio e importância entre si. É hora de fazer com que as atitudes efetivamente percebidas na vida real falem mais alto. Músicos que efetivamente respeitem suas igrejas locais, e dêem a devida importância a elas. E igrejas que reconheçam o ministério de seus músicos, honrando devidamente os que mecerem honra. Basta de conversa mole enquanto cada parte segue vivendo como se nada tivesse a ver com a outra. Pobres lados da mesma moeda, que ainda não descobriram que são uma moeda só, e que só tem valor se forem unidos.


Muito já se escreveu sobre o assunto. Das muitas coisas boas, deixo a tarefa de ser profundo para livros como “O coração do artista”, de Rory Noland,  e “Músico: profissão ou ministério”, de João Alexandre e Luciano Garruti. São páginas de bons conceitos, experiências e vários pontos de vista para que cada um balize os seus.

Aqui tenho a oportunidade e dever de ser conciso. Portanto, nada melhor do que pensar nos 4 pontos que sempre usei para meu próprio consumo pessoal. Três deles saem do exemplo bíblico de Timóteo.

1) A chama do dom de Deus
Dou graças a Deus, a quem sirvo com a consciência limpa, como o serviram os meus antepassados, ao lembrar-me constantemente de você, noite e dia, em minhas orações. Lembro-me das suas lágrimas e desejo muito vê-lo, para que a minha alegria seja completa. Recordo-me da sua fé não fingida, que primeiro habitou em sua avó Lóide e em sua mãe, Eunice, e estou convencido de que também habita em você. Por essa razão, torno a lembrar-lhe que mantenha viva a chama do dom de Deus que está em você mediante a imposição das minhas mãos.
2 Timóteo 1:3-6

Paulo o tinha em alta conta. Via em Timóteo a fé autêntica, a vida séria, dons, talentos e capacidades que o faziam seguro de que Deus realmente havia separado o rapaz para uma boa e grande obra.

Você é músico? Ótimo. Conhece a Deus? Melhor ainda. O que Deus quer de você com sua música? Não sabe ao certo?

Tem de haver a chama. E se existe a tal chama do dom de Deus em sua vida, duas coisas acontecem:

a) você sabe que ela existe – é aquele algo em você que não lhe deixa parar. É o  que lhe tira da inércia e faz trabalhar, mesmo sem que alguém peça. É aquele “algo” que você consegue fazer mas sabe que não veio só por estudo e treino. É o que alguns chamam de inspiração. Gosto de pensar que é o “sopro de  Deus”
b) outros percebem que ela existe – talvez não seja sua música que é especialmente boa, mas suas letras, sua voz, sua habilidade instrumental, sua vida, o que e como você fala e faz. Os outros percebem que Deus faz algo em você, e por tabela, também faz algo neles, através de você.
Existem as duas coisas? Ótimo. Grande chance de você ter a tal chama do dom de Deus. Portanto, você tem um ministério.

Mas antes que você se anime e já sonhe com a fama, lembre-se que só em Brasília ministro significa chefão, manda-chuva, poderoso. Na Bíblia ministério significa serviço, trabalho, encrenca, muito abacaxi a descascar.

Também não se anime só porque em sua igreja existe espaço para que você toque ou cante. Banheiros também servem para isso. Não saia por aí procurando por palcos para cantar. Siga a chama do dom de Deus na instrução de onde e o que ministrar; onde e a quem servir, ajudar, trabalhar.

Tal como clubes e garagens, igrejas também estão cheias de dublês de músicos. Da mesma forma que bater uma bolinha de fim de semana não faz de você um Ronaldinho, tocar um violão em rodinha de amigos (ou no louvor da sua igreja) não necessariamente diz a você que há um ministério.

Não estou dizendo que só os ‘muito bons’ tem um ministério da parte de Deus. Estou dizendo que ministros tem aquilo que faz os outros perguntarem: “o que ele tem de diferente?”

A chama. O que faz diferença é a chama.


2) Que ninguém lhe despreze...

Ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza
1 Timóteo 4:12

Se você realmente tem a chama, e isso não é opinião apenas sua, que ninguém lhe despreze. Nem por ser jovem, nem por ser músico, nem por ser isso ou aquilo. Seja o que Deus lhe separou para ser.
E se começar a haver algum tipo de desprezo? E se alguém começar não dar a devida importância ao que você faz?

Bem primeiramente volte ao item 1 e veja se os outros realmente reconhecem que você tem a chama. Ah... e não valem sua mãe nem suas tias. Gaste mais tempo com o espelho e com amigos verdadeiros que sejam capazes de dizer o que precisa ser dito. Esta análise deve ser feita sempre, mesmo que você já esteja na estrada há muito tempo. Não custa nada, e faz um bem danado.

Aliás, colecione estes bons amigos. São raros, mas existem. São preciosos, mas  são de graça. Mas não são nem puxa-sacos nem fãs. São em geral chatos, construtivamente críticos. A medida em que uma certa fama e reconhecimento surge (e isso não é ruim, não; é só escorregadio...), eles lhe ajudam a manter os pés no chão, e o trem nos trilhos.

E se mesmo assim, vencida a etapa anterior, seguir havendo desprezo, desrespeito, discordância?

Bem, saiba que sempre vai haver. Todo e qualquer ministro (servo) de Deus encontra oposição em seu trabalho, de uma forma ou de outra. Por que Paulo disse isso a Timóteo? Ora, porque havia desprezo por ele ser jovem! Paulo o estava consolando, e o incentivando a seguir em frente, a vencer o desprezo.

Desprezo vai haver. Lide com ele, lembrando-se sempre que Deus não o despreza, nem você deve se desprezar.

E como se faz para lidar com este desprezo?


3) Seja um exemplo

Na forma como você procede, na forma pela qual a Palavra é seguida em sua vida, na pureza de seus atos e intenções, no amor e afinco com que você trabalha. Enfim, seja um exemplo de alguém que tem a chama do dom de Deus acesa dentro de si.

Não seja conhecido pelas extravagâncias na sua lista de exigências de camarim. Seja um exemplo em como lidar com as necessidades (e os custos) de seu ministério.

Não seja apenas conhecido por sua habilidade técnica. Seja exemplo em como usa-la para Deus, sem estrelismos, com seriedade e competência.

Não seja conhecido pelas modas que você lança. Seja exemplo pela ousadia com que você fala de Deus e prega e vive Sua Palavra.

Não seja conhecido apenas pelo número de pessoas que discordam de você. Seja exemplo em como você lida e respeita seus opositores. Viva em voz alta.

Não seja conhecido “pelos panos quentes” que sua gravadora/produtora tem de usar para abafar suas molecagens, suas farras, adultérios, desvios morais, etc. Seja um exemplo de vida, e siga com autoridade em seu ministério.

Não seja conhecido pelos respeito que você exige. Seja exemplo, pelo que sua esposa e seus filhos atestam que você é em casa.

E se mesmo assim continuar havendo desprezo, desrespeito, etc? Ora, volte ao item 2, talvez ao 1, e a resposta não estiver lá...


4) Busque sua Cafarnaum

Todos falavam bem dele, e estavam admirados com as palavras de graça que saíam de seus lábios. Mas perguntavam: "Não é este o filho de José?" Jesus lhes disse: "É claro que vocês me citarão este provérbio: 'Médico, cura-te a ti mesmo! Faze aqui em tua terra o que ouvimos que fizeste em Cafarnaum' ". Continuou ele: "Digo-lhes a verdade: Nenhum profeta é aceito em sua terra. Asseguro-lhes que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu foi fechado por três anos e meio, e houve uma grande fome em toda a terra. Contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, senão a uma viúva de Sarepta, na região de Sidom. Também havia muitos leprosos em Israel no tempo de Eliseu, o profeta; todavia, nenhum deles foi purificado - somente Naamã, o sírio"
Mateus 4:22-28

Sei que soa pesado. Pode soar arrogante virar as costas e buscar outro caminho. Mas se você passou e assume diante de Deus a responsabilidade de suas convicções e a seriedade de seu ministério, não fique insistindo em Nazaré. Trabalhe onde Deus lhe abre as portas, e saiba entender e aceitar quais Ele fecha.

Muito mais do que um ato de desagravo, aprendí a ler este texto como uma recomendação de não ficar insistindo com quem não quer lhe ouvir, nem ficar dando murros em pontas de faca.

Mas cuidado! Sua Cafarnaum não está onde estão seus fãs. Cafarnaum está onde Deus indica. Lembre-se que nenhum dos grandes profetas da Bíblia foi um campeão de audiência. Elias, Eliseu, Jeremias, Isaias viviam como que falando sozinhos, pois poucos estavam dispostos a ouvi-los. E eles seguiram servindo. E hoje são lembrados por isso.

É realmente preciso “procurar Cafarnaum”? Há horas em que é preciso, sim. Principalmente quando estamos em lugares onde interesses e personalismos reinam soltos. Há muitas igrejas por aí cheias disso, onde líderes, pastores e até músicos lutam entre si para se tornarem os donos do show de cada domingo.

www.provoice.com.br

 
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